segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Nara, uma poesia.

 Uma pedra não surge do nada, os poemas costumam surgir.
As pedras não amadurecem, os poemas e os poetas sim. E devem.
Uma pedra não finge, o poeta, como é sabido, é um fingidor.
As pedras podem não querer dizer nada, os poetas pretendem muitas vezes ensaiar dizer tudo.
As pedras sabem esperar, os poetas são impacientes.
É provável que as pedras perdurem para sempre, é provável que os poemas não.
Tentar ler uma pedra pode ser uma perda de tempo, tentar ler um poema nunca o é.
As pedras em si mesmas não são conflituosas, alguns poetas são-no.
As pedras não tem identidade, a poesia sim.
As pedras não respiram, a boa poesia respira.
As pedras preciosas são raras, os grandes poetas muito mais raros são.
Uma pedra ocupa sempre um lugar, a poesia pode não ocupar e, sim, como dizia o poeta, é sempre uma coisa muito bonita.
Uma pedra não sofre, há poemas sofridos, tal como sofríveis.
Há, na realidade, poetas que parece não terem ultrapassado a idade da pedra.
Uma pedra pode ser inútil, um poema é sempre útil.
Uma pedra pode matar, a poesia raramente mata, a não ser que transborde de emoções ou se arme em reaccionária.
Houve uma idade da pedra, não sei se existiu, existe ou existirá uma idade da poesia. Se calhar todas as idades são idades da poesia.
Às vezes o Homem parece não conseguir passar sem pedras, há homens que parecem conseguir passar sem poesia.
Os bichos não gostam de pedra, há bichos que infelizmente gostam de poesia. E gostam das nossas estantes, gostam de mastigar palavras e papel.
Com as pedras permanecemos, com a poesia viajamos.
Há pedras em todo o lado, os poemas encontram-se ao fundo dos poetas.
As pedras podem servir para afundar, um poema pode ser fundacional.
As pedras por vezes confundem-se, os poetas são sempre distintos. No entanto, sim, há poetas confundidos.
A pedra não diz, o poema diz.
Água mole em pedra dura, na poesia é loucura.
A pedra não vira costas a nada, a poesia por vezes vira as costas à vida.
As pedras não se comprometem, a poesia deve comprometer-se.
As pedras não nascem em nós, a poesia nasce.
Uma pedra não acontece, a poesia acontece.
Uma pedra não é senão aquilo que é, pedra. A poesia é sempre mais do que aquilo que parece.
As pedras são coisas, os poemas são coisas especiais.
As pedras têm qualquer coisa de nada, a poesia tem qualquer coisa de tudo.
Uma pedra pode entrar no sapato, o poema dificilmente é uma pedra no sapato.
Uma pedra não provoca incêndios, um poema pode ser incendiário. Sobretudo se queimado. Outrora inúmeros poemas alimentaram grandes fogueiras.
As pedras são diárias, os poemas nem sempre.
A pedra só responde por si, o poema responde também pelo poeta.
Uma pedra pode bastar, raramente um poema nos basta.
Uma pedra atirada pode fazer barulho, um poema atirado pode fazer muito mais.
De noite as pedras apagam-se, os poemas refulgem.
Podemos guardar uma pedra no bolso, mas jamais no peito como um poema.
Um lugar com uma pedra pode continuar a ser um lugar vazio, um lugar com um poema jamais o será.
Um conjunto de pedras pode tapar o horizonte, um conjunto de poemas abre o horizonte.
Uma pedra pode servir de prova, um poema não pretende provar nada.
Para voar uma pedra precisaria de asas, um poema não precisa.
As pedras pesam, os poemas levitam.
As pedras não sabem a frutos, os versos podem saber a cerejas.
É provável que as pedras perdurem além de si mesmas, é menos provável que os poemas perdurem para além dos leitores.
As pedras não sangram, há poemas que parecem sangrar.
As pedras não são raízes, os poemas são como raízes.
O vento não entra nas pedras, mas o vento pode entrar num poema.
Uma pedra só é, o poema vive.
Uma pedra tem veios, um poema veias.





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